Perplexo e estupefacto! Assim fico, quando ouço reacções favoráveis a Salazar. Normalmente ignoro tais disparates, pela simples razão de a maioria dos que enaltecem o trabalho do ditador, desconhecerem o que realmente significou o Estado Novo. Desconhecem a miséria, o analfabetismo, a escassez de oportunidades e a fome que varreu Portugal de Norte a Sul. Durante mais de quatro décadas, o país viveu na penúria, isolado do resto do mundo. Por cá sucediam-se os atropelos à carta dos direitos humanos. Os que recusavam partilhar da visão retrograda da ideologia fascista do regime, acabavam pelo forte de Peniche, ou pelo famoso resort do Tarrafal. De Salazar elogiam o controlo das finanças públicas. Eu questiono: De que vale um controlo feito à custa de um sistema educativo inexistente, de um sistema de saúde só ao alcance dos ricos e da condenação do próprio povo a uma miserável existência? Na minha opinião, não vale nada. Nada mesmo. Salazar foi um verme que apareceu neste país, deixando-o em coma profundo durante mais de quatro décadas.
Os meus avós, como muitas outras crianças, não chegaram sequer a completar o ensino básico. Ainda como crianças foram obrigados a entrar num agreste mercado de trabalho, para ajudar nas despesas lá de casa. Por casa, uma sardinha chegava a ser partilhada por mais que uma pessoa. As refeições eram pois o reflexo de um país que teimava em não sair da penúria pela casmurrice de quem julgava poder manter um império, mesmo após o desmantelamento de grandes impérios, como o britânico. Não satisfeito, por ter condenado o povo ao mais obscuro dos analfabetismos, decidiu empenhar o país numa longa guerra, cujos resultados revelaram-se desastrosos, não só em termos materiais, mas sobretudo em termos humanos. Uma geração inteira foi enviada, para o atoleiro africano. Mal preparados e ainda pior equipados, muitos voltaram traumatizados e mutilados, outros por sua vez pereceram a muitos quilómetros de casa, defendendo não o interesse nacional, mas apenas o controverso imperialismo de um idiota. Brilhante Salazar!
Elogiar Salazar, é pois, com má fé, passar o famoso lápis azul pelos mais de 40 anos de Estado Novo, desculpabilizando as atrocidades cometidas pela PIDE, o assassinato do General Humberto Delgado e a tortura a que foram submetidos milhares de prisioneiros políticos. É desrespeitar a memória dos milhares de portugueses mortos em África. É valorizar o atraso cultural de um país que vivia a preto e branco. É ignorar, que por este simples texto, eu poderia ser encarcerado e torturado para o resto da minha vida. Brilhante Salazar, Brilhante!
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