É raro, muito raro ver um cronista português falar sobre um assunto tão sensível, como o é o conflito que há décadas opõe israelitas a palestinianos, suficientemente distanciado dos dois lados da barricada. O Henrique Raposo, a quem reconheço (embora raramente partilhe das suas ideias) boa capacidade argumentativa, espalha-se normalmente ao comprido, sempre que aborda este assunto.
Para o Henrique, a culpa é sempre do árabe. Ponto final. Os israelitas massacram civis em Gaza, logo a culpa é dos árabes, que pediram para ser massacrados. Ah esperem! Afinal lançavam rockets para território israelita, em resposta a um total bloqueio imposto pelos israelitas à faixa de Gaza, que levou a uma grave crise humanitária. Mas, claro, a culpa continua a ser da exclusiva responsabilidade dos palestinianos.
Para o Henrique, os do Hamas são terroristas (e ninguém no seu perfeito juízo pode afirmar o contrário). Já a Mossad, é para o Henrique e para grande parte do Mundo Ocidental, uma espécie de grupo de escuteiros (usando uma expressão do Henrique), cujos duvidosos métodos de actuação (tortura, desrespeito pela soberania alheia, etc), justificam-se à luz da defesa do Estado israelita (!?). Yitzhak Rabin, por exemplo, na óptica do Henrique, terá sido assassinado por um perigoso extremista árabe, certo?
O problema dos nossos cronistas é pois esta ambiguidade e o preconceito que os move contra o Mundo Árabe. Desinformação? Também. Raras são as vezes que li, ou ouvi, alguém falar do caos provocado nos países vizinhos, pela criação do Estado judaico, devido à pressão demográfica exercida em consequência da onda de refugiados palestiniana que se gerou nos anos seguintes. Os Palestinianos deveriam supostamente agradecer aos Judeus, por estes os expulsarem das terras onde sempre tiveram as suas raízes? Os países vizinhos, como Síria e Líbano, devem aceitar alegremente a concretização do sonho sionista (criação da Grande Israel) que implica a perda de soberania sobre uma vasta área territorial? Devem estes países, por imposição da ONU, continuar a ser responsáveis pelas centenas de milhares de palestinianos que aí se encontram ainda hoje refugiados?
O reconhecimento por parte da ONU do Estado da Palestina, mais do que um dever, é uma obrigação. É o passo mais importante rumo à pacificação de todo um Médio Oriente, certamente cansado de tantos conflitos e da miséria que daí advém. Os israelitas têm todo o direito ao seu território soberano, mas os palestinianos também, sendo esse um pequeno detalhe que continua a escapar aos radares do Raposo e de outros como ele.
tudo tem por base a negociação e nunca a imposição.
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